13 fevereiro 2016

A Arte de Educar

Comecei minha vida profissional aos 14 anos, quando me tornei instrutora de ballet clássico. Depois disso, por gosto com a vida acadêmica e amor aos livros me tornei professora de Filosofia no segundo grau e mais tarde professora universitária nas disciplinas de sociologia, criminologia e filosofia. Hoje continuo ligada a vida acadêmica, mas longe das salas de aulas.
Felizmente pude fazer essa opção quando o David nasceu. Hoje sou mãe em tempo integral: mãe é profissão de fortes; somos educadoras, motoristas, artistas, organizadoras de festas e atividades, um pouco enfermeiras e até médicas. A lista é longa.
Confesso que educar um ser humano, é uma das tarefas mais desafiantes que já enfrentei na vida.
Meu filho tem 4 anos, e está determinado a interagir com o mundo da forma como ele imagina. Nem sempre sua imaginação vai de acordo com as normas de ‘civilidade’ e aí começam os desafios.
1. Pedir por favor, agradecer, dizer com licença, aguardar sua vez para falar… são atividades simples que tentamos ensinar em casa. Se ele pede alguma coisa deve pedir por favor, se receber, deve agradecer. Obviamente, esse ‘ensinamento’ já mais enraizado, não pode deixar de ser praticado nunca. Assim, sigo torcendo para que o ‘costume de casa vá a praça’.
2. Ipods, Ipads, sim ele tem. Sei que vai chegar o momento em que não poderei limitar o uso, porque então, a idade não permitirá. Assim, ele sabe: no carro, preste atenção na paisagem, converse, cante, conte histórias, pergunte. Há muito para se ver… Em casa, brinque e quando estiver cansado, use o Ipod (com filmes adequados para sua idade, jogos sem violência embutida…). Ao sair de casa, o Ipod fica.
3. Educar o comportamento individualista não é fácil, mas é necessário. Algumas batalhas foram travadas para evitar o ‘reino’ imaginado pelo nosso filho. Sentar-se a mesa para comer no horário da família; respeitar o espaço do outro, aguardar a vez de falar… diria estamos em bom caminho.
Ainda em processo de aprendizado está o fato de que, se algumas coisas não vão como ele quer, ‘a cara de choro’ surge e algumas vezes o ensaio do choro. A nossa estratégia é sempre a mesma: ‘respire fundo e se organize ou vai perder o privilegio de brincar com… (usamos o favorito do dia, seja Lego, ipad, carros…). Normalmente funciona, porque ele sabe que estamos falando sério. Das vezes que ele ‘nos testou’ quando chegou em casa colocamos ele na cadeira (sentado por 1 minuto) e explicamos que ia perder o privilégio de brincar com (por exemplo) o carrinho favorito do dia. Das primeiras vezes que ‘educamos’ ele chorou, mas nos mantivemos firmes e AGORA ele sabe o que tem a perder e faz a escolha dele. Nem sempre ele escolhe o ‘ensinado’ mas já sabe que suas decisões são carregadas de consequências...
De acordo com Pamela Druckerman, no livro As Crianças Francesas Não Fazem Birra, lido por indicação da mãe do João, Yandra, “Birras não mudam regras. É importante ter isso em mente, Isso não quer dizer que precisamos ser frios. É importante mostrar solidariedade e deixar que as crianças expressem seu descontentamento.” Então vamos lá...
Uma única vez removemos ele do restaurante. Ele queria comer algo que não tinha no cardápio e antes que começasse o ‘protesto’ meu esposo, foi para o carro com ele. Lá ele ficou sentando na cadeira por um minuto e quando voltou veio uma outra pessoa, o bom humor retornou. É preciso muita paciência e persistência, porque enquanto meu esposo foi para o carro eu fiquei sozinha no restaurante, imaginando quanto tempo ia durar até a volta deles. Mas contive a minha vontade de ir ver o que estava acontecendo.
4. Idas a supermercados, lojas… foi um outro aprendizado. Antes de sair de casa explico: vamos fazer as compras da casa e você não vai pedir nada, entendeu? Obviamente ele diz que sim. Aconteceu algumas vezes dele ter dito sim, e ao chegar na loja agiu em beneficio próprio pedindo o que queria. Nesses casos, explico, argumento, e se não funcionar (e as vezes não funciona) deixo que ele proteste e encurto a visita para evitar ‘perturbar’ as pessoas. Em casa, ele vai se sentar na cadeira e ouvir as explicações já ditas antes. Sim, sim, sim  é exaustivo para mim e para ele. Mas educar é um projeto de longa duração.
O fruto dessa atividade de dizer não, é que o David, já vai no Shopping e no Supermercado e volta sem pedir nada. Fácil não foi, mas hoje vejo que valeu o nosso esforço.
Para diminuir as expectativas dele: eu aviso onde vamos, o que vamos fazer e comprar e algumas vezes digo que ele pode escolher alguma coisa no valor X e outras vezes digo que ele não vai comprar nada. Consistência é a chave do sucesso.
5. Já percebi que David, tem uma personalidade decidida. E quando ‘coloca sua mente’ em alguma coisa, se determina a fazer acontecer. Eu tento usar isso a favor dele. 
Ele está na natação e vai com muito gosto. Não preciso chamar duas vezes para as aulas. Depois das aulas fica um tempo na piscina. Utiliza bem a energia e fortalece os músculos. Uma mãe conhece bem o filho e percebe o que ele gosta de fazer. Talvez nadar não seja o esporte adequado para seu filho(a), então pense em outra atividade esportiva.
Outra atividade que o David tem apreciado são as aulas de piano. Ele gosta de música. E eu gosto da ‘estrutura das aulas’, penso que auxilia na organização das ideias, na expansão da mente.
Sempre trato os professores do David com muito respeito e até referência. Penso que uma boa lição para ele, é ver que eu os trato bem e que essas pessoas são importantes para nós. Quando oportunidades se apresentam, digo ao David para comprarmos ‘lembranças’, ‘presentes’ para os professores. Digo que é uma forma de agradecer todo o trabalho de ensiná-lo. Já percebi, que algumas vezes ele diz que quer levar algo para o professor X, ou Y, partindo dele a atitude de agradecer.
6. Tento ao máximo, trabalhar com artesanato. Confio na arte de ‘montar’, ‘criar’, ‘idealizar’... atividades simples mas que fortalecem a mente e ajudam a preparar a musculatura das mãos ainda em desenvolvimento, para a arte da escrita.
Fácil não é... algumas atividades fracassaram por não despertar interesse. Assim tenho sempre listadas 3, 4 atividades e vou de uma para outra, caso a primeira não funcione.
Para facilitar meu trabalho, nos inscrevemos em um box de atividades, o Kiwi Crate. Kiwi Crate é um serviço de assinatura mensal especializado em oferecer atividades e jogos para as crianças. O site envia pelo correio um kit com um projeto educativo para montar, criar e brincar. Cada mês é uma atividade diferente, uma aventura diferente. No Brasil tem um serviço semelhante, Box Joanninha e quem gosta de educar pela arte, vale a pena pesquisar.

7. Por fim, ‘a arte de elogiar’, decidimos elogiar a área do comportamento. Se David se comporta bem, elogiamos.

Ele está no Kumon, e recebeu uma medalha por estar avançado em matemática e em leitura. Ficamos felizes! Muito felizes!!! Mas não alongamos a conversa com intensos elogios.

Mas quando percebemos que ele por exemplo: compartilha um brinquedo com outra criança; é gentil com alguém; aguarda sua vez para receber alguma coisa; sai da piscina quando chamo, sem demorar... aí sim elogiamos entusiasticamente. E porque? Porque uma pessoa que sabe viver em comunidade, que não ‘se demora’ nas frustrações da vida; que tem bom humor; que sabe ser responsável por suas escolhas... essa pessoa vai conquistar sucesso acadêmico, profissional e material.

Não, não temos um filho comportado, como disse antes, ele é um menino decidido e sabe o que quer (e quer logo!). Mas podemos frequentar qualquer ambiente sem que o David interfira na paz do lugar. Ele aprendeu que um não é um não. Ele pode até negociar, como as vezes faz: “me deixa ficar mais 10 minutos na piscina?” as vezes digo sim, as vezes digo “fique 5 minutos...” e explico o motivo.

Trato-o com respeito, mas impondo os limites necessários, porque afinal ele tem 4 anos e terá muito tempo para decidir, sem a nossa interferência... para que avançar o tempo?

Obviamente há crianças meigas, há crianças determinadas, há crianças rebeldes, há crianças ‘adultas’... e ninguém melhor do que aquele ou aquela que cuida para saber como determinar o que funciona e o que não funciona. Uma coisa eu tenho percebido, cuidar é atividade cansativa, educar é atividade constante. Amar é impor limites pelo bem da criança e o bem daqueles que convivem com ela.

O Rei das Fraudes ~ John Grisham

A história mostra o universo das ações indenizatórias coletivas. Clay Carter é um advogado de 31 anos que trabalha na Defensoria Públic...