14 abril 2015

Reflexões de uma Brasileira nos Estados Unidos

Tendo recebido de amigos, perguntas e questionamentos sobre minha moradia aqui nos Estados Unidos, decidi escrever alguns atinos e desatinos sobre minhas percepções.


Moro nos Estados Unidos há 8 anos (2 anos como assistente de pesquisa em um Laboratório de Antropologia na Universidade do Arizona; 1 ano como professora visitante na Universidade do Texas em Austin e 5 anos com meu esposo e filho na Carolina do Sul, como esposa, mãe, recentemente blogueira, coordenadora das coisas de casa... e outras mil funções)

Obviamente outros falarão com mais propriedade do assunto. Mas do que vivi, vejo... deixo dito:

1. Sobre o ‘pacto social’. Isso mesmo o pacto social pensado por Rousseau, onde o fundamento da ordem social, não vem do direito natural, nem da força, mas de uma convenção social.

Nos Estados Unidos me parece que as pessoas acreditam mais no Pacto Social, onde, ainda que não uniformemente, ‘todos tem direitos’. A conquista dos direitos para esse povo é fato consumado, e há que se buscar novos e melhores direitos sempre.

No Brasil, como nosso pacto social, é muitas vezes seletivo, não temos a mesma atitude de luta. Sabemos que uns pensam ter mais direitos que outros e os ‘cheios de direitos’ apelam constantemente para isso. O fato é que, o pacto social ‘frouxo’ pode gerar um grupo de ‘folgados’ onde as leis são estabelecidas, mas não são cumpridas.

Um exemplo simples e talvez até simplificador...

Nos Parques da Disney, lugar bem visitado pelos brasileiros, pude perceber isso: não sendo possível entrar com ‘carrinhos de crianças’, você, ‘estaciona’ o mesmo, em um lugar determinado e segue. Os americanos deixam praticamente tudo nos carrinhos (confiam no pacto social), os brasileiros levam tudo (nem precisa dizer o porque).

Os americanos estacionam o carrinho onde houver espaço (ainda que seja no sol ou na chuva), os brasileiros tiram, jogam, chutam, derrubam os carrinhos de outras pessoas porque querem o melhor lugar. (E como não tem ninguém olhando...)

Aconteceu comigo. Na primeira vez que vi uma pessoa literalmente jogando o carrinho do David (meu filho) no chão, fiquei chateada, e quando fui lá para levantar o carrinho ouvi:
A dona do carrinho chegou.
E eu com isso? Essa indiana lá sabe o que estou falando, como é que vai reclamar?
E assim de indiana, eu mudei o carrinho de lugar. Evitei discutir, porque há certos aborrecimentos que não quero para mim. Pela educação da moça, não tinha argumento que eu pudesse usar.

Na segunda vez não vi o acontecido, mas pensei ter perdido o carrinho, porque não o encontrava em lugar nenhum... Falei com um jovem que monitorava a fila de entrada em um evento do parque e ouvi:

alguns brasileiros estavam mudando os carrinhos dos lugares de novo
Em inglês eu perguntei, - porque o parque não monitora isso?
Já está sendo visto, vamos colocar segurança para os estacionamentos de carrinhos.
Que bom!!! Assim fica todo mundo feliz!

Depois de se desculpar e me dar passes para entrar em algumas atrações sem fila, o jovem me ajudou a procurar o carrinho que estava em outro estacionamento... segui meu caminho.

Aconteceu ainda uma terceira vez (isso em 5 dias de visita aos parque), vi a jovem empurrando meu carrinho para o sol, e colocando o dela lá. Dessa vez, fui lá e disse em alto e bom tom: Excuse me!!! E coloquei o carrinho de volta. Ela fingiu que não entendeu, mas disse para a companhia dela: Mulher Grossa!!! Eu fui chamada de grossa, dá para entender?

Sim já voltei aos Parques depois desses episódios e pelo menos nas atrações mais populares para crianças há (porque será?) um organizador no estacionamento de carrinhos que fala português.

Falo desse fato, mas acontece ainda o famoso ‘furar de filas’, o ‘empurrãozinho’ para encontrar o melhor lugar para ver o desfile de rua e o falar mal das pessoas (roupas, cabelo, sapatos... ) como se ninguém mais entendesse português.

2. Competitividade. A competitividade é outra coisa interessante. A comunidade de brasileiros se une em eventos de lazer e se você não faz parte do clube dos que amam festa, vai ficar isolada. Não há (na minha percepção) um meio termo, um sentimento de pertença, de nacionalidade... (salvo os jogos da copa)

Nas viagens que fiz percebi que, nem sempre encontrar um brasileiro é sinal de alegria, a não ser que você faça parte do clube... do clube dos ricos, dos que se vestem na moda, dos que bebem, dos que criticam tudo e todos... então nesse sentido, sou uma outsider.

3. Entusiasmo. Tinha quase esquecido como somos entusiasmados pela vida, quase sempre interrompendo a outra pessoa antes dela terminar de falar e nem sempre aceitando argumentos contrários. Felizmente há exceção.

4. A vaga distinção entre público e privado. Obviamente em espaço público há que se respeitar as outras pessoas ainda que não faça parte do seu desejo. Me parece as vezes, que as pessoas esquecem que vivemos em comunidade.

5. Educação. Obrigada, obrigado, por favor, boa tarde... estão se perdendo na nossa fala.

Uma brasileira vendo que meu filho de 4 anos usar constantemente as palavras: thank you, please, excuse me... me disse:
Acho tão aborrecido esse costume dos americanos de agradecer e pedir por favor por tudo.

Eu fiquei em silêncio. Dizer o que? Essa mesma brasileira reclama que sofre preconceito por parte dos americanos porque é brasileira.

Eu particularmente penso que sente uma certa ‘frieza no trato’ por ser considerada uma pessoa rude e não por ser brasileira. Talvez eu seja uma pessoa abençoadamente distraída, mas não lembro de ter sofrido preconceito por conta da cor da minha pele, ou meu sotaque, ou latinidade...

6. Comida. Em tempo: a comida americana é também fast food. Mas como em todo lugar do mundo, o valor da comida está (infelizmente) agregado ao preço que você pode pagar. Na cidade onde moro tem restaurantes cubanos, mexicanos, tailandeses, japoneses, brasileiros, para citar alguns. E os restaurantes americanos? eu particularmente Gosto de Red Lobster, Outback e da fast food KFC.

7. Vestimenta. Gente arrumada encontramos em todos os lugares do mundo. Desarrumadas, ainda mais. O fato é que aqui, dependendo da forma como você se coloca (fala, age, interage), as pessoas se preocupam menos com sua roupa. Não me vejo indo deixar meu filho na escola (morando no Brasil), vestida informalmente. Ainda se percebe em alguns lugares do Brasil: ‘você é o que você veste, e que seja de grifes exclusivas. Pode ser até de mau gosto e de preferência bem caras’.

Não faço parte do time dos ‘arrumados’, me visto com simplicidade e ainda não senti nenhum tipo de preconceito nas lojas, supermercados, restaurantes, escolas...

No Brasil, entrei em um loja... e ouvi da vendedora:

A promoção é aqui! (como já sabia o que queria, terminei minha compra, paguei a vista e sai da loja, mais tarde escrevi para a gerência sugerindo treinamento para as vendedoras.)

Outra vez ouvi:
Só parcelamos em até 3 vezes! (Como eu não havia perguntado, pensei não ter entendido, mas a vendedora frisou o Só parcelamos... mais uma vez)

E ainda:
Temos peças mais baratas!!!

Na verdade o que percebo é que as vendedoras estão tentando ajudar, e querem vender... o que dizem não me aborrece tanto quando a falta de treinamento da gerência das lojas. 

8. Carro. No Brasil sempre dirigi um Ford Ka, carro de minha preferência; fácil de estacionar, de manobrar e limpar. Aqui dirijo um Honda de 7 lugares, como podem perceber me adapto.

Quantas ‘brincadeiras’ ouvi com minha falta ‘de bom gosto’ para carro. A mais aborrecida ouvi de uma pessoa a quem ofereci carona para um evento. Detalhe, ela não estava podendo dirigir e o evento ia ser em um hotel de ‘luxo’ em Fortaleza. Ela disse:

 Eu?!!! Chegar de Ford Ka no evento? Nunca!!! Carro de pobre.

Detalhe que eu sabia... meu Ford Ka era do ano e comprado a vista, o carro dessa pessoa, foi comprado em 60 prestações e ela ainda estava pagando.

Ainda encontramos pessoas que lhe valorizam pelo carro que você dirige, ainda que na verdade, esse carro seja da financiadora.

9. Honestidade. As vezes ser honesto é sinônimo se ser bobo. No Brasil, a coisa se acentua. Aqui há muitos desonestos. A presença desta figura está em todo lugar do mundo, mas normalmente não se exalta essa atitude, é algo velado. No Brasil, percebo, as vezes,  que é motivo de conversa e muita piada.

Quando jovem, fui passar um tempo na Itália. Éramos um grupo de 4 jovens passeando em uma tarde de verão em uma cidadezinha pequena (na região de Toscana). Nos deparamos com uma sorveteria com o Honor System, ou seja, o que você consumir, você paga. Não há uma pessoa na loja, não há câmeras,  o que há é a confiança de que você é honesto. Pegamos cada uma, um gelatto. Na hora de pagar, duas de minhas colegas decidiram pela desculpa: ‘o país é rico, um picolé não vai fazer falta’.

Para mim é claro. Eu consumi, eu vou pagar. Não importa quem é rico, quem é pobre. É uma questão de educação.

Aqui nos Estados Unidos quando morei como estudante as coisas não eram fáceis. O dinheiro era pouco e muitas vezes comi fast food.

Uma colega brasileira me convidou para irmos a um supermercado. Na hora de pagar ela escolheu uma caixa brasileira. Elas tinham um esquema. Nem todos os produtos a moça passava o código de barra, diminuindo assim o número de produtos e consequentemente o valor da compra.

Depois minha colega explicou que podia colocar algumas coisas para mim em seu supermercado. Eu agradeci a gentileza, mas não participaria da lógica, ‘o supermercado é rico’.

Vi e ouvi muitos ‘esquemas’ e não critico a escolha das pessoas, até porque cada uma é livre para agir como quiser. Infelizmente não podemos cobrar da sociedade, o que não damos.

Sim como uma exilada da minha Pátria, por escolha de casamento, sou feliz. Amo o Brasil. A terra, a natureza, a música, a comida, a língua... sinto falta da família, dos amigos, dos colegas, quero que o meu filho fale português e ame o Brasil.

Mas não sinto falta da excessiva familiaridade dos estranhos, da desumanidade disfarçada (normalmente dos mais ricos, mas também das pessoas pobres), do fingimentos dos ‘amigos’; da escolha consciente de ser rude, do desrespeito pela classe trabalhadores, da constante mania de burguesia e for last but not least, das pessoas que reclamam do Brasil e não agem de acordo com suas reclamações. (furam fila, maltratam o garçom, não cumprimentam os colegas de trabalho; levam vantagem sempre que podem, não respeitam horários e acham elegante reclamar de tudo).

Vou seguindo com a esperança de que isso mude e que os brasileiros comecem a viajar mais, reclamar menos e a se olhar com a mesma intensidade com que olham os defeitos dos outros.

Sei que generalizar é a arte do erro. Com esses pontos,  não pretendi comparar os países, as pessoas, mas compartilhar algumas impressões de quem sabe que em todos os lugares do MUNDO há dificuldades.  Cabe a você, a mim, nos adaptarmos.

Enquanto isso, como ‘outsider’ sou feliz aqui. Nunca ‘compreenderei’ totalmente essa cultura, não nasci aqui, não sei as canções de crianças, muitas vezes não entendo quando contam uma piada, estou sempre perguntado, aprendendo... faz parte e não me sinto excluída por não entender de tudo, vejo como uma oportunidade de ler mais, de ouvir mais... Sou brasileira e de lá tenho minhas origens na pele, no coração, na memória.

Aqui, país que vivo, sou feliz, não sei se mais ou menos se morasse no Brasil, pois como diz Mia Couto escritor moçambicano, ‘O importante não é a casa onde moramos. Mas onde, em nós, a casa mora.’


O Rei das Fraudes ~ John Grisham

A história mostra o universo das ações indenizatórias coletivas. Clay Carter é um advogado de 31 anos que trabalha na Defensoria Públic...