23 fevereiro 2015

Manoel de Barros

O menino que carregava água na peneira
Tenho um livro sobre águas e meninos.
 Gostei mais de um menino
 que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
 era o mesmo que roubar um vento e 
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
 que catar espinhos na água. 
O mesmo que criar peixes no bolso. O menino era ligado em despropósitos.
 Quis montar os alicerces
 de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino 
gostava mais do vazio, do que do cheio.
 Falava que vazios são maiores e até infinitos. Com o tempo aquele menino 
que era cismado e esquisito,
 porque gostava de carregar água na peneira. Com o tempo descobriu que
 escrever seria o mesmo
 que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
 que era capaz de ser noviça, 
monge ou mendigo ao mesmo tempo. O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
 E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
 O menino fazia prodígios.
 Até fez uma pedra dar flor. A mãe reparava o menino com ternura. 
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
 Você vai carregar água na peneira a vida toda.Você vai encher os vazios
 com as suas peraltagens,
 e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

Kafka e a Boneca Viajante ~ Jordi Sierra i Fabra

'As noções do simbólico e real, são caminhos que percorremos até chegar a aceitação das frustrações ou perdas, ou como disse a bo...